quinta-feira, 12 de junho de 2008

PAI

E partiu como um dia de sol antes da chuva.
Rápido, atemporal, célere como um enfarto inoportuno,
Deixando em seu lugar restos de lembranças
De dias viçosos como o florir da primavera.
De mim levou a esperança que eu já não tinha,
Espaço preenchido por uma amargura seca,
Uma vontade de amaldiçoar a Deus.
Por que não eu?
Por que machucar minha mãe, deixando-a sozinha?
Se tudo tem um propósito, eu queria entender:
Em que este mundo melhorou com sua partida?
Por que os bons morrem antes,
E os inúteis se perpetuam, se proliferam?
Que desejo egotista de cercar-Se dos justos,
Enquanto povoa a terra de sementes ruins!
Jardineiro censurável, que, ao invés de arrancar a erva,
Iracundo, ceifa apenas os bons frutos,
Deixando o jardim improdutivo
E os parentes tristes como as árvores no outono -
Galhos secos, desfolhados; erguidos ao céu
Como a rogar a volta da chuva,
Pra um jardim que há muito tornou-se deserto.
Acho que nunca vou entender por que tudo morre,
Embora saiba que a morte é parte do processo -
Uma premissa do jogo dialético que governa o sistema -
Ordem essa que prega que para que haja vida,
Algo, invariavelmente, tem sempre que morrer.

Antônio Carlos Kal-el

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