quarta-feira, 15 de julho de 2009

VELAS E FLORES

Quem chorará no meu velório quando eu partir?

Ou dirá a todos os presentes, consternado:

— “Se muito não fez, ao menos amou demais!?”

Quem, sobre meu féretro, recitará meus poemas?

Pois se não fui bom poeta, vivi de poesia...

Escrevi sobre tudo — sobretudo o amor!

O mesmo amor que me roubou os dias de glória!

Quem bradará aos quatro ventos que mereci uma nota,

Mesmo jamais tendo sido notado... ?

Diante do me esquife, quem lembrará os meus atos,

Atribuindo-me as bondades que fiz,

Enquanto acinzenta os meus maus passos?

Digam que fui menestrel, daqueles que cantam em púlpitos!

Quem me negará os louros depois da morte,

E dirá que não fui poeta em tempos de pouca poesia?

Quem porá flores no meu ataúde no dia sem sol,

E acenderá velas cinéreas em prol da minha ida?

Sim! Morreram os grandes vates. Calou-se a inspiração!

Que aqueles que ficam, escrevam no meu epitáfio:

Buscou a poesia acima de tudo até o fim!

Antonio Carlos Kal-el

JOVENS TEMPOS

Lembranças daqueles jovens tempos de alegria,

Quando o futuro era uma incerteza

E o presente não se fazia com dor;

Embora adormecêssemos com medo do amanhã,

Sempre acordávamos sorrindo do ontem.

As paixões floriam com as cores da estação,

Os erros sempre pareciam jovens demais:

Pois continuamente havia espaço para reparações!

Hoje eu te amava incondicionalmente;

Amanhã tua falta não me fazia tanta falta.

Foi-se a vontade de envelhecer,

Ficou o arrependimento de não ter usufruído mais.

Quero passar o tempo sem o peso da neve nos cabelos,

Quero olhar o fim da tarde sem medo do amanhecer.

O amanhã chegou e não trouxe tenras novidades,

O que veio foram as seqüelas inevitáveis da cronologia:

Dias cinzas, momentos ocres, horas retorcidas

Tempos razoáveis, que nada mais são, vaticino,

Que sombras das eras ensolaradas e jovens.

Envelheci. Foi-se a vontade de sonhar.

De tudo resta um arquivo perene que não envelhece:

As minhas lembranças meu reduto de bons tempos.

Antonio Carlos Kal-el

INCONGRUÊNCIA

Sou uma vontade que não tem destino,

Uma força incontida, um desejo inerte,

O que não fala, não se move, o que não é nada;

E me tranco num silencio cansativo,

Quando falar é pura perda de tempo,

E calar-se, sinal de ignorância...

Tenho no imo a vontade dos fortes,

E no meu coração um desejo fraco,

Fraco como a psicologia da modificação,

Pois mudar é contrariar o concreto,

E tudo aquilo que alteramos,

Precisa se readaptar,

Fazer-se comum, como comum são os hábitos.

Tenho perguntas que nunca serão respondidas,

Pensamentos que jamais serão compreendidos...

Tenho uma vontade de ser Deus, embora eu nunca possa!

Resta-me, então, a minha infâmia infrene,

O meu desejo de rimar: perene!

A minha certeza de ser chão.

Do pó ao pó — da dor à dor,

Do que fui, àquilo que nunca serei.

Partes de um todo que não me completam, nem completarão.

Se eu sou a sombra no espelho,

Como não posso ser aquilo que eu quero,

Certamente não reflito aquilo que eu sou,

E, então me torno tudo o que eu jamais quis ser:

Justamente o que acabei me tornando — EU!

Antonio Carlos Kal-el