quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

INSÔNIA ALUCINÓGENA

Madrugada. Baldada a tentativa,
Do que carece qualquer alma viva...
O sono, esse maldito companheiro,
Não veio visitar o meu recinto.
No abrasamento que dos olhos sinto –
Vejo o futuro negro e derradeiro!!!

Entre tantos pensamentos absortos –
Desde a imortalidade a seres mortos –
Num lapso (não consigo mais pensar);
E olhando o forro hermético do quarto,
Do surto claustrofóbico me aparto,
E uma porta abro, pra respirar!


De joelhos, sob a lua, desvairado,
Inspirando, ofegante, o ar do prado –
Trôpego, mas liberto da prisão,
Lembro, louco, que achava estar detido
Num lugar totalmente comprimido;
Um baú, semelhante a um caixão!

Exaurindo, com os bofes aos estalos;
De repente ouço o trote de cavalos –
Quando olho, já não vejo mais saída...
Sob os capuzes estão quatro branquelos
Segurando, em suas mãos, negros cutelos.
Afiados por ceifar a minha vida!!!


De repente, ao batuque das zabumbas,
Já me vejo ao redor de muitas tumbas
Com pessoas que vagam ao desterro...
No compasso dos badalos de um sino,
Vejo entes queridos, e, vaticino
Que estou acompanhando o meu enterro!

Num frêmito surto de insensatez,
Meto todos os dedos de uma vez
Na retângula gélida cerâmica,
Tentando libertar a minha imagem
Da diáfana base sem passagem,
Sob os joelhos, numa ação dinâmica!


Do lapso de segundo em que vacilo:
Ergo os olhos – Estou na orla do Nilo!
Embevecido... Tão ébrio de absinto,
Vejo meu corpo dentro dum sarcófago –
Devorado por “besouro antropófago”...
E ao ver a cena me sinto faminto!

Silêncio sepulcral... Sinto o marasmo
E do transe desperto, num espasmo...
Do meu corpo malsão, debilitado –
Suado qual um porco, lembro as estórias:
Seriam verdadeiras? Ilusórias?
Ou dormi, pra com elas ter sonhado???
Antônio Carlos Kal-el

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

DEPOIS DE TANTO AMAR

Não é possível que depois de tanto amor
Não sejamos mais capazes de nos encararmos.
Já dividimos tantas noites insones , sôfregos,
Entre lençóis amarrotados e suspiros sequiosos!
E hoje mal nos cumprimentamos quando nos vemos.
Onde foram parar as gentilezas e os carinhos,
As promessas de amor eterno, as juras?
Onde foi parar o meu bom-senso,
Que não me fez voltar atrás, desculpar-me,?
Pois não sou capaz de viver sem teus afagos.
E a tua lucidez, por onde andará?
-- Não vê que a tua felicidade tem o meu nome...?
Nego-me a aceitar que já não nos conheçamos.
Aprendi a te desvendar completamente --
Defeitos, virtudes, sestros e manias --
E disso não sou capaz de me desatrelar.
Como também desaprendi a conquistar...
Todas as outras mulheres possuem teu rosto,
Tua silueta, teu andar inconfundível.
Contudo, os outros homens não sentem a minha dor,
Não são tão solitários, ressabiados,
Não tiveram que aprender a viver sem ti.
Como até hoje nunca aprendi. Sobrevivo!
Antônio Carlos Kal-el

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

F A N T A S M A S

A solidão costuma me fustigar as idéias,
Bem naqueles momentos em que todos dormem;
São gritos e sussurros que não me deixam só,
E não há nada tão ensurdecedor quanto o silêncio,
Quando as companhias já se foram
E os fantasmas armaram acampamento.
O saldo de guerra após o término do amor
São as lembranças que insistem em permanecer,
Pois não há nada que possa afugentá-las;
E se existe algo que nunca nos deixa
São as recordações de antigos pecados:
Provas cabais dos males que praticamos.
Nos momentos de desespero, a maior dor,
São as lembranças da alegria de outrora,
Que ficam retumbando dentro do peito...
Atestando que um dia já sorrimos.
Nas horas de amargura percebemos
Que os sorrisos abundantes no passado,
Já não vagam livremente como antes:
Estão atarraxados pela ferrugem!
As cicatrizes imperam pelo meu corpo,
Mesmo na minha pele de paquiderme,
Que já não pode sentir o assovio do vento.
Muitas assombrações me fazem companhia...
Um turbilhão de vozes estridentes,
Gritando em meu ouvido de instante em instante:
"Não existe a paz quando se prova do amor."
É. Depois de amar ficamos assombrados...!

Antônio Carlos Kal-el

domingo, 10 de fevereiro de 2008

FAZ DE CONTA

Vem! Finjamos que nada aconteceu...
Prometo esquecer tuas ofensas;
Não guardar rancor dos insultos.
Anda! Não nos atemos aos piores dias,
Revivamos apenas as boas lembranças;
Deve ter sobrado algum resquício de amor.
Vamos! Façamos de conta que não há cicatrizes...
Eu te perdôo as tentativas de homicídio;
E tu, os meus xingamentos escabrosos!
Sei que somos capazes de um entendimento,
Do contrário já teríamos outros pares;
Se estamos sós, é porque nunca nos deixamos!
Aceita meus beijos, que já te excitaram tanto;
Deixa eu desbravar teu corpo saudosista.
Eu sinto que ainda não me tiraste de ti.
Podemos ir juntos à delegacia:
Eu retiro as queixas, o processo...
Somos adultos, ainda que só às vezes.
Não deixemos que nossos egos nos separem,
Saibamos dosar nossas altercações,
Pra que elas não interfiram mais.
Acho que podemos contornar velhas mágoas,
Usufruindo dos nossos melhores instantes...
E, convenhamos, não negue: Tivemos muitos!
Vem! Finjamos que nada aconteceu...
Podemos ser felizes. Eu sei que somos capazes,
Pelo menos até a próxima briga!
Antônio Carlos Kal-el

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

TEMPOS MODERNOS

Vivemos tempos incomuns, imemoriais,
Onde a ordem natural das coisas foi subvertida
E o bem e outras virtudes de caráter,
Já não trazem a devida compensação
A quem se aventure em praticá-las.
Foi-se o tempo romântico dos pequenos pecados.
Hoje impera as disparidades faraônicas,
Os rotineiros desvios de conduta,
As constantes mudanças de identidade,
A total perda de idiossincrasia!
Já não somos um, como outrora.
Pior. Somos uma legião...
Muitos senhores se alternando, ao bel-prazer,
No controle de uma máquina sem controle.
Houve um tempo em que os anjos caíam;
Embora o paralelo não se justifique,
Levando-se em conta tamanha a distância
Que nos separa do divino...
Nós... "pecados"... apenas rolamos e rolamos...
Já que não podemos cair mais.
Rolamos na lama como porcos no cio,
Conspurcando tudo que tocamos.
São sinais dos tempos modernos,
Tempos de agora. Hoje que perdemos a fé.
É uma pena não ser mais tempo de milagres;
Se fosse, eu poderia modificar antigos vícios,
E evitar de cometer gravíssimos erros.
Antônio Carlos Kal-el

INCOERCÍVEL

Todas as vezes que tentei te entender,
Sempre me deparei com as mesmas incertezas,
Como se a minha impressão a teu respeito
Se restringisse a um caminho sem volta...
Contigo sempre me senti como uma estrela perdida
Diante do buraco negro da tua arrogância,
Que invariavelmente me roubava a luz,
Por mais que eu tentasse fulgurar!!!
Todas as tentativas que fiz de te alcançar,
Sempre me levaram a becos sem saídas,
Onde eu me via diante de portas fechadas
E cicatrizes doloridas e incuráveis!
Contigo aprendi a perder o sono
E a decifrar bulas e comprimidos --
Essas companhias de todo fim de noite.
Tu me roubaste mais do que só a paz,
A saúde, a gana, ou outros impropérios;
Roubaste-me a possibilidade de ser.
Das atitudes descabidas de pária que desenvolvi,
Quase todas levam a tua assinatura...
À exceção de algumas: Próprias do meu cunho!
Há muito deixei de crer nas pessoas,
Embora eu ainda faça parte desse rol;
Rol onde não me deste chance de me mostrar,
Pois o amor era um palco pequeno demais pra nós.
Há muito deixei de te amar desesperadamente.
Isso não quer dizer que eu tenha esquecido,
Pois os erros são mais marcantes e lenitivos
E o amor só sobregarrega o pâncreas,
Ainda que vicie o alma...
E eu nunca fui de negar o meu instinto incoercível.

Antônio Carlos Kal-el

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

P A R A S I T A


E agora só te restam as lembranças,
Pois tudo que existia – não alcanças...
Aquilo que tivera se perdeu;
Eu sim, na tua desgraça agora sorvo
O sorriso que um dia fora teu...
Agora sentes dores? Vês? sou eu!
De ti me alimentando como um corvo!

Eu sempre me alimento da tua dor.
E medro – quanto maior ela for!
Cresço mais, quanto menos tu cresceres;
Se em meio a tanta dor és tão inerme –
Mais crescerei! Por fim – quando morreres...
Hás de findar-se, como os outros seres:
Comerei as tuas carnes como um verme!

Se tens a vida de males repleta –
Esse teu infortúnio me completa –
E eu ando a espreitar a tua desgraça:
Querendo sê-la, no teu vil final...
Eu, quando chegar o fim da tua raça,
Salivando perante a tua carcaça –
Teu ventre rasgarei como um chacal!

Eu ainda hei de ver a tua miséria...
Depois da solidão eremitéria,
Quando, por fim, das forças te esmoreças,
E sentindo que nada mais te nutre –
Morreres (como morrem pés, cabeças)...
Vou então esperar que tu apodreças
Para eu te devorar como um abutre!

E, indiferente às tuas faces úmidas,
Ou, quiçá, quem dera, às vísceras túmidas...
Nada no mundo irá nos separar –
Eu sempre te serei a mesma frágua;
A dor intermitente a martelar...
E enquanto este teu peito respirar,
Irei te carcomer como uma mágoa!!!
A. Carlos Kal-el