quarta-feira, 30 de setembro de 2009
O DIA MAIS IMPORTANTE
Eu já não falo mais nada. Deixo tudo passar!
Onde está a chave, a razão de tudo?
Existe alguma tranca pro meu coração?
Não quero mais esconder os meus defeitos.
Calma! Espere um pouco: Eu ainda não estou pronto,
Não para demonstrar as minhas qualidades.
Sou um montante de tudo que já busquei ser.
Alguém viu uma cópia de mim andando por aí?
Preciso encontrá-la, ela fugiu com minha esperança!
Acho que vi teu vulto pela janela... Ou será que não!?
Vamos, não me desminta: diga que buscas aquele que fui!
Não sou triste. Tristeza é andar a esmo, soslaiando,
Vendo o mundo pelo viés do que ele poderia ser.
Hoje é meu dia, não tente me desiludir;
Vamos correr pelas ruas atrás dos pingos da chuva!
Não quero saber se o dia está ensolarado.
Quero perseguir algo além de explicações pra tudo.
Eu queria ver-te vendo as coisas pelos meus olhos,
Talvez, então, assim pudesses me entender,
E saber que te amar muito mais do que a mim mesmo,
Às vezes me deixa inseguro, sem saber quem sou.
E sou quem sou: sombras de ontem, dúvidas de amanhã!
Não tente me agradar estou além do teu alcance,
Mas muito aquém de onde deveria estar.
Mas deixemos isso pra lá, afinal, hoje é meu dia,
E a última coisa que quero é me aborrecer.
Antônio Carlos Kal-el
terça-feira, 8 de setembro de 2009
LIÇÕES
Viver, e conciliar os altos e baixos da nossa natureza
É a aquela que nos toma mais tempo.
Tempo, palavra imprecisa, sinônimo de matizes,
De uma escala cinérea, outrora de dias infindos,
Com o tempo, apenas dias céleres, senis.
Quando utilizar o montante de fatos que acumulamos,
Se já não temos aquilo que tanto buscamos?
Somos tão alienados e nem sempre temos razão.
Queremos o topo, e quando chegamos,
Exaustos, nos damos conta de que não valeu a pena,
E descobrimos que o percurso é que foi importante.
Nesse ínterim, extrapolamos as regras:
Vamos do fundo à borda, da borda ao raso.
E o copo sempre parece estar meio vazio.
A poeira dos vícios é o mais difícil dos maus hábitos,
Aquele que por mais que queiramos, não queremos deixar.
E deixamos, contudo não perdemos o pior deles,
O hábito imperfeito de bancarmos o bom samaritano!
Estou tentando aprender a esperar,
Mas sempre ajo contra minha própria vontade.
Por que te incomoda que eu seja assim?
Por que queres que sejamos tão iguais?
O que mais tu queres mudar em mim?
Onde ficou a parte em que me amas irrestritamente?
Ah, já sei, ficou para trás, como sempre.
Antônio Carlos Kal-el
SOLUÇÃO
Do complexo “ina” a Jesus,
E nada me trouxe a paz que eu tanto buscava.
Fui do início ao final e perpassei a dor.
Quero a resposta — embora desconheça a pergunta!
Amo a dúvida que leva ao desespero,
Contudo, detesto a certeza que me torna comum.
Onde está o sol que há tempos não vejo?
Vamos... Algo me diz que o mundo continua
E eu quero ser feliz, ao menos um pouquinho!
Não tente me alcançar. Você não sabe,
E, se não me conhece, tampouco me entende!
Assim, é impossível ter da vida bonança e entusiasmo.
Nunca. Ou pelo menos não quando queremos.
Vejo pela janela a morte com cutelos negros.
Mas ela não pode me pegar agora.
— “Posso me esconder aqui? Não tenho pra onde ir”.
— “Pelo menos enquanto eu me preparo”.
— “Acho que vou me trancar no banheiro”.
Agora, não! Aliás, de novo, como sempre, não!
Por favor, Deus, saia, eu preciso ficar sozinho.
Vou firmar um contrato com a solidão:
Ela não me procura e eu prometo deixá-la em paz.
Antônio Carlos Kal-el
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
ACERTO
Ficaram poucas arestas.
Já sei quem eu sou, e quem eu sempre fui!
Só falta me redescobrir.
Hoje desvendei minhas intrigas,
Parei de competir com o espelho;
Também de tirar fotografias.
Agora guardo os laços outrora lassos...
Um dia invisíveis, e agora reais.
Ainda não antecipo meus erros,
Embora saiba como reagir.
Vejo meus dias como espaço de convergência.
Hoje quem me persegue é a felicidade,
No entanto eu só quero a solidão.
Meus cabelos já não são tão brancos,
Só em meados de julho, quando envelheço.
Aprendei a sorrir quando me desgraço,
E a chorar quando tudo está bom demais.
Já não ouço passos, tampouco conto as horas.
Tudo está calmo como uma manhã de chuva,
Contudo eu sei que o silêncio está por aí,
Espreitando uma esquina pra me acertar.
Estou de peito aberto a sua espera,
E ele por certo virá: são favas contadas,
E, como sempre, tão célere quanto o vento.
Antonio Carlos Kal-el
quarta-feira, 15 de julho de 2009
VELAS E FLORES
Quem chorará no meu velório quando eu partir?
Ou dirá a todos os presentes, consternado:
— “Se muito não fez, ao menos amou demais!?”
Quem, sobre meu féretro, recitará meus poemas?
Pois se não fui bom poeta, vivi de poesia...
Escrevi sobre tudo — sobretudo o amor!
O mesmo amor que me roubou os dias de glória!
Quem bradará aos quatro ventos que mereci uma nota,
Mesmo jamais tendo sido notado... ?
Diante do me esquife, quem lembrará os meus atos,
Atribuindo-me as bondades que fiz,
Enquanto acinzenta os meus maus passos?
Digam que fui menestrel, daqueles que cantam em púlpitos!
Quem me negará os louros depois da morte,
E dirá que não fui poeta em tempos de pouca poesia?
Quem porá flores no meu ataúde no dia sem sol,
E acenderá velas cinéreas em prol da minha ida?
Sim! Morreram os grandes vates. Calou-se a inspiração!
Que aqueles que ficam, escrevam no meu epitáfio:
Buscou a poesia acima de tudo até o fim!
Antonio Carlos Kal-el
JOVENS TEMPOS
Lembranças daqueles jovens tempos de alegria,
Quando o futuro era uma incerteza
E o presente não se fazia com dor;
Embora adormecêssemos com medo do amanhã,
Sempre acordávamos sorrindo do ontem.
As paixões floriam com as cores da estação,
Os erros sempre pareciam jovens demais:
— Pois continuamente havia espaço para reparações!
Hoje eu te amava incondicionalmente;
Amanhã tua falta não me fazia tanta falta.
Foi-se a vontade de envelhecer,
Ficou o arrependimento de não ter usufruído mais.
Quero passar o tempo sem o peso da neve nos cabelos,
Quero olhar o fim da tarde sem medo do amanhecer.
O amanhã chegou e não trouxe tenras novidades,
O que veio foram as seqüelas inevitáveis da cronologia:
Dias cinzas, momentos ocres, horas retorcidas—
Tempos razoáveis, que nada mais são, vaticino,
Que sombras das eras ensolaradas e jovens.
Envelheci. Foi-se a vontade de sonhar.
De tudo resta um arquivo perene que não envelhece:
As minhas lembranças — meu reduto de bons tempos.
Antonio Carlos Kal-el
INCONGRUÊNCIA
Sou uma vontade que não tem destino,
Uma força incontida, um desejo inerte,
O que não fala, não se move, o que não é nada;
E me tranco num silencio cansativo,
Quando falar é pura perda de tempo,
E calar-se, sinal de ignorância...
Tenho no imo a vontade dos fortes,
E no meu coração um desejo fraco,
Fraco como a psicologia da modificação,
Pois mudar é contrariar o concreto,
E tudo aquilo que alteramos,
Precisa se readaptar,
Fazer-se comum, como comum são os hábitos.
Tenho perguntas que nunca serão respondidas,
Pensamentos que jamais serão compreendidos...
Tenho uma vontade de ser Deus, embora eu nunca possa!
Resta-me, então, a minha infâmia infrene,
O meu desejo de rimar: perene!
A minha certeza de ser chão.
Do pó ao pó — da dor à dor,
Do que fui, àquilo que nunca serei.
Partes de um todo que não me completam, nem completarão.
Se eu sou a sombra no espelho,
Como não posso ser aquilo que eu quero,
Certamente não reflito aquilo que eu sou,
E, então me torno tudo o que eu jamais quis ser:
Justamente o que acabei me tornando — EU!
Antonio Carlos Kal-el

