Lembranças daqueles jovens tempos de alegria,
Quando o futuro era uma incerteza
E o presente não se fazia com dor;
Embora adormecêssemos com medo do amanhã,
Sempre acordávamos sorrindo do ontem.
As paixões floriam com as cores da estação,
Os erros sempre pareciam jovens demais:
— Pois continuamente havia espaço para reparações!
Hoje eu te amava incondicionalmente;
Amanhã tua falta não me fazia tanta falta.
Foi-se a vontade de envelhecer,
Ficou o arrependimento de não ter usufruído mais.
Quero passar o tempo sem o peso da neve nos cabelos,
Quero olhar o fim da tarde sem medo do amanhecer.
O amanhã chegou e não trouxe tenras novidades,
O que veio foram as seqüelas inevitáveis da cronologia:
Dias cinzas, momentos ocres, horas retorcidas—
Tempos razoáveis, que nada mais são, vaticino,
Que sombras das eras ensolaradas e jovens.
Envelheci. Foi-se a vontade de sonhar.
De tudo resta um arquivo perene que não envelhece:
As minhas lembranças — meu reduto de bons tempos.
Antonio Carlos Kal-el


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