terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A SOLIDÃO ATÉ QUE ME FAZ BEM

Há muito estou esperando amanhecer...
Depois da última noite de chuva,
Eu perdi o medo dos clarões que rasgam os céus,
Ficou apenas o medo do silêncio;
Agora preciso me acostumar com esses olhos,
Olhos insanos que insistem em me vigiar,
Antevendo, talvez, os meus planos fatídicos.
As coisas já aconteceram com certa simetria,
Hoje os rasgos de tempo, são tão atemporais:
Uma mágoa, depois um sorriso, após um tempo,
Outra dor, e mais uma, e outra, somente, então, um alento
E a certeza de que perdemos na soma dos males,
Ao mesmo tempo em que nos desacostumamos do bem.
Agora estou cansado de buscar explicações,
Do porquê de tudo, de como fiquei assim...
Vejo resquícios do que já foi perfeito —
A lembrança do silêncio daqueles dias,
A vergonha diante do espelho por aquelas marcas;
E hoje tenho medo até do meu olhar,
Que junto com minha mão, amarga tudo que sente.
Foi-se o tempo em que eu via tudo acontecer —
Fechei meus olhos... Parei de tocar minhas alegrias...
Às vezes peço a Ele que vá embora,
Pois preciso ficar sozinho pra chorar até que amanheça.

Antônio Carlos Kal-el

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A D E U S ! ! ! !

Vamos! Rápido! Arruma as tuas coisas!
Anda logo! Eu já perdi muito tempo...
Vai! Deixa a minha vida sem graça!
Não demora! Eu tenho pressa de viver,
Já me desfiz de muita coisa pra te agradar,
Agora, pra me agradar vou me desfazer de ti
E, pra variar, me importar um pouco comigo!
Vivemos o bem que se podia usufruir:
Tu gozaste das venturas da bonança,
Eu, ao contrário, sofri as mazelas da dor;
E diante dessa troca incongruente,
Sou obrigado a te vender em troca de um punhado de paz.
Vai! Leva os meus segredos por aí,
Espero, no entanto, que tenhas a dignidade
De mantê-los em segredo. Lembre-se: Eles são meus!
Ainda estás por aqui? O que te falta? Adeus?
Pois vá, e me deixa com o silêncio dos meus botões,
Eles certamente não me farão o mal que me fizeste.
Assim, não quero mais te ver,
Pois teu rosto me traz lembranças ruins,
A tua presença me deixa angustiado.
Tu. Logo tu que já me fizeste tão bem.
Hoje somos partes distintas de um sonho frustrado...
Tu, que partes com a tua infâmia,
Eu, que fico com a tua falta...
Ah, antes de saíres, faça-me o favor de fechar a porta...
A luz, não! Deixe-a acesa, eu te peço,
Eu ainda tenho medo do escuro...
Antônio Carlos Kal-el

HÁ TEMPOS

Hoje sobrevivo das lembranças que você deixou...
Carrego vestígios, sestros, manias que aprendi contigo.
Há tempos que espero um dia de sol,
Mas tudo são sombras, rastros apagados,
E as pessoas são vultos descrentes, fantasmas,
Que vagam por aí ermos, a esmo, perdidos;
Alguns à procura de luz, (otimistas),
Outros que, como eu, há muito deixaram a claridade,
Andam a deriva em busca dos mortos.
Depois que você me deixou,
As cores perderam brilho, se acinzentaram;
Os dias não aumentaram, nem diminuíram:
Deixaram de existir, pois perdi a noção de tempo.
Dia e noite é tudo o mesmo intervalo de espera.
Já não reconheço os arrebóis,
Tampouco enxergo as estrelas.
Passo um dia após o outro, numa contagem mecânica,
De comer o que não tem gosto,
Amar o que não tem forma,
Buscar o que os outros dizem
E respirar sem querer, pois é parte do instinto,
Não depende da minha vontade.
Se dependesse, eu iria preferir morrer,
Ou, pelo menos, deixar de te amar.
Antônio Carlos Kal-el

sábado, 5 de julho de 2008

QUANDO PODÍAMOS TUDO

Vim te cobrar a promessa que nunca fizemos
De que um dia nós seríamos três...
Resquícios de um tempo em que podíamos tudo:
Fazendo amor de brigas torrenciais
E diamantes de fragmentos de vidro!
Às vezes parecia que, de tanto acreditar,
Nossas ilusões podiam ser reais,
Como aquelas cicatrizes calejadas,
Ou o pote de lágrimas comunitário,
Que enchíamos até a borda...
E mutuamente aceitávamos desculpas;
Mas desculpas nem sempre são sinceras,
Como sinceras não eram tuas ofensas,
Tampouco as tuas juras de amor eterno,
Que sussurravas entre um orgasmo e outro!
Eu quis te contar meus segredos inconfessáveis,
Mas eu temi que pudesses usá-los contra mim,
Num daqueles teus rompantes inconseqüentes,
Quando não medias o poder das palavras,
Muito menos o simbolismo de uma traição.
Guardo ainda teus segredos mais sinceros:
Teu medo de ter medo de ter medo,
Sabendo que tinhas o poder do cavalo a vapor
E ainda assim insistias em andar a pé.
Tinhas tanto a oferecer,
Mas teimavas em mendigar parcialidades...
Antônio Carlos Kal-el

S E M P R E

Ando a procura de respostas,
Sedento de saber um pouco de tudo.
Se chego ao lago do conhecimento, digo:
"Dai-me de beber, que tenho uma sede sem fim."
Tenho um desejo exibicionista de ensinar
E pouca paciência pra aprender.
Sempre fingimos ter calma com aqueles
Que vivem de nos contar histórias repetidas;
Assim, nunca somos sinceros,
Alegando que a sinceridade fere.
Mas a verdade é o exercício da coragem,
E a mentira, um telhado de vidro;
Não jogue pedras na minha casa
Que prometo não te fazer perguntas difíceis.
Tento melhorar, dizendo que estou bem...
Mas já não sei se só isso me satisfaz!
Ah, quando tu estavas comigo
Eu acho que gostava mais de mim mesmo.
É estranho como sempre nos reinventamos,
Embora eu sempre faça de mim cópias defeituosas.
Agora, só por hoje, eu não quero me esquecer
Que pareço perdido, mas sei exatamente onde estou,
E que do amor tenho a falta que me deixaste.
É duro não ter o que ouvir,
Não se ter a quem amar...
Depois de nós, aprendi a SEMPRE pedir perdão!
Antônio Carlos Kal-el

terça-feira, 24 de junho de 2008

EU SEI QUE VOU TE AMAR

Eu não digo nada por dizer...
Tudo que falo tem uma razão, sentimento ou motivo,
O que me faz evitar frases de efeito
E jargões macanicistas que não representam, no fundo,
Aquilo que realmente pensamos: Aquilo que sou...!
Quando sinto, vivo aquilo que sinto,
O que me faz chorar, se me toca o peito,
Ou rir - Afinal, nem tudo são lágrimas!
Amo um dia por vez, e o todo por parcelas,
Pois o tempo já não conspira a meu favor;
E as horas voam, mas os detalhes engatinham.
Não posso dizer que te amo (É cedo!) --
Estimo, gosto, adoro... Sim, posso te adorar.
Não pela tua santidade - falta-te uma auréola -
Adoro-te pelo prazer da tua companhia,
Pelo teu jeito ranzinza que afasta a todos:
Todos aqueles que ainda não te conhecem.
No fundo és uma romântica incorrigível,
Que adora poesia e chora ao ler um romance açucarado.
A tua denguice me fascina...
Teu jeito carente de se perder no meu abraço.
Tão pequena... Tão frágil... Tão bonita...!
Tão sincera quando precisa falar a verdade,
E tão tímida, quando é exigida a se expressar!
Ainda não te amo. Sabes disso! Eu já disse: É cedo!
Mas tens tudo que procuro na mulher perfeita,
E te amar é apenas uma questão de tempo,
E tempo é tudo que tens: És jovem!
Posso não saber de tudo... Afinal de tudo ninguém sabe;
Mas uma coisa eu sei (são favas contadas)!
Podes apostar tudo que tens no que agora vaticino, pois,
EU SEI QUE VOU TE AMAR!

Antônio Carlos Kal-el

quinta-feira, 12 de junho de 2008

PAI

E partiu como um dia de sol antes da chuva.
Rápido, atemporal, célere como um enfarto inoportuno,
Deixando em seu lugar restos de lembranças
De dias viçosos como o florir da primavera.
De mim levou a esperança que eu já não tinha,
Espaço preenchido por uma amargura seca,
Uma vontade de amaldiçoar a Deus.
Por que não eu?
Por que machucar minha mãe, deixando-a sozinha?
Se tudo tem um propósito, eu queria entender:
Em que este mundo melhorou com sua partida?
Por que os bons morrem antes,
E os inúteis se perpetuam, se proliferam?
Que desejo egotista de cercar-Se dos justos,
Enquanto povoa a terra de sementes ruins!
Jardineiro censurável, que, ao invés de arrancar a erva,
Iracundo, ceifa apenas os bons frutos,
Deixando o jardim improdutivo
E os parentes tristes como as árvores no outono -
Galhos secos, desfolhados; erguidos ao céu
Como a rogar a volta da chuva,
Pra um jardim que há muito tornou-se deserto.
Acho que nunca vou entender por que tudo morre,
Embora saiba que a morte é parte do processo -
Uma premissa do jogo dialético que governa o sistema -
Ordem essa que prega que para que haja vida,
Algo, invariavelmente, tem sempre que morrer.

Antônio Carlos Kal-el

quarta-feira, 23 de abril de 2008

UMA QUESTÃO DE QUANDO...

Quando é uma noção de tempo imprecisa.

Requer esforços de forças nunca temos...

É como medir a passagem dos dias

Pela quantidade de dores que suportamos,

Sendo que, às vezes, estamos frágeis demais,

Até para os cálculos mais simples.

Não posso, não podes, não podemos...

Agora, não! Que tal depois?

Não mais! Não podemos saber, dizer quando,

Quando novamente voltaremos a crer.

"Aquilo que não nos mata, nos fortalece..."

Não sei em quê pensava Nietzsche,

Quando afirmou, ensandecido, que podíamos, sim,

Nos adaptar a impropérios, a dores.

"É quando nosso orgulho acaba de ser ferido

Que é mais difícil ferir nossa vaidade."

Palavras dele... Fundamentemos?

Não, não sei quando deixaremos de chorar.

A tristeza até que me cai bem.

Evita que eu me empolgue demais,

E, daí, sofra dobrado, desnecessariamente.

Como não podemos medir o sofrimento,

Também não podemos precisar até quando,

Até quando teremos que sofrer

Até que chegue o esquecimento.

As lembranças nos alimentam a vida,

Só o esquecimento, porém, a torna suportável.

Não posso prever até quando irei sofrer por ti...

Quiçá a vida inteira. Quem sabe?

Posso apenas amenizar os teus efeitos,

Pois o tempo não apaga as marcas,

Apenas enferruja as lembranças!!!


Antonio Carlos Kal-el

sábado, 15 de março de 2008

AS CARTAS QUE ESCREVI

Sentado numa mesa, num lugar distante de ti,
Componho o cabeçalho conhecido,
Enquanto penso nas notícias que contarei:
Antigas verdades que viraram mentiras;
Sonhos enrugados que já foram nossos.
O tempo não passa se a tua ausência permanece,
No entanto, meus cabelos ficaram brancos,
Embora a tua mágoa não tenha se abrandado.
No passado que insisto em não esquecer,
Tudo compensava, como numa reciprocidade,
Pois naquele tempo, confesso:
Te fazer feliz, me fazia feliz...
E agora posso te contar:
Já segui centenas de receitas pra te esquecer.
Mas o que posso fazer,
Se sou um péssimo cozinheiro?
Meus dias vivem ávidos por notícias tuas;
Mas tudo que sei, que recebo,
São aquelas cartas que me envio pelo correio...
Nelas descubro que tu retomaste a vida,
E rapidamente esqueceste meu endereço.
Aqui, guardo pra te dar essas cartas de amor.
Cartas que nunca te mandarei!
Elas se acumulam pelas estantes,
Como a poeira que entra pelas frestas da janela...
Já são muitas, como muitos são os anos, passados;
E as conto por contar, por uma dessas manias modernas.
Mas sei que isso tudo não te importa,
Se interessasse eu te mandaria notícias...
Hoje, sim, eu vou ao correio:
Me enviar uma carta contando notícias minhas...
Talvez, assim, eu consiga apaziguar essa solidão!
Antônio Carlos Kal-el

A PARTILHA

Amei você, terra inexpugnável!
Horizonte aonde o sol chega por vezes;
E te esperei, ainda que não fosse confiável,
Dando-te minha vida: Tudo que eu tinha!
E se o amor existe -- É o som do afago,
O silêncio do seu suspiro no orgasmo...
O meu amparo é minha vontade de amar;
Essa coisa de querer morrer incessantemente,
Ao passo que viver é um tormento
E continuar, é repisar antigas mágoas.
Espero que nunca revele nossos segredos,
Nem divida com outro, leviana,
Antigos sonhos que já partilhamos.
Quero de volta a parte que me cabe
No latifúndio que foi a nossa história,
E que agora é campo improdutível,
Onde só reina o reles saudosismo.
Já dividimos os bens participáveis.
A ti couberam as lembranças benéficas --
A melhor parte desse quinhão!
Levo as cicatrizes, os ressábios, o bolor --
Tudo de pior que ficou de nós dois...
Levo, porém, algo que você nunca terá:
A certeza que fiz de tudo pra dar certo,
E que, se não deu, foi por covardia sua.
Essa culpa fica contigo. Obrigado!
Antônio Carlos Kal-el

sexta-feira, 14 de março de 2008

A FUGACIDADE DOS VERSOS

Ainda existem poetas por aí....
Tudo bem, que somos uma raça em extinção,
Mas nem um império perdura, perene,
Indestrutível como um castelo de areia.
Sim. Um castelo na areia representa o imutável,
Pois ainda que a onda o destrua intermitentemente,
Os dois são partes de um todo, um conjunto,
E as ondas sempre irão existir;
Assim como os vates: lascivos ou suicidas...
Assim como a praia e as águas!
Sou um poeta de notas tristes,
Versos saudosistas e rimas feridas.
Sou aquele que ficou chorando, sozinho,
Todas as dores do mundo.
Logo me aceito como incapaz de mudar os fatos,
E me entrego à fugacidade dos versos.
Aqui dentro! (Universo onde sou senhor de tudo,
E as coisas olham ao redor, subjugadas,
Impotentes...Vassalas da minha vontade de escrever!).
E podemos escrever sobre o que não sabemos,
Opinar sobre o que não entendemos,
Descrever o que não sentimos;
Tudo dentro da licença poética,
Resguardados pela subjetividade.
Um poeta é um médico de alma,
Amparado por uma ciência não-oficial.
Não precisamos de diretrizes, normas;
Afinal, tratamos das dores de amor,
E não existe outra ciência que melhor as entenda;
Por isso ainda existem poetas por aí.

Antônio Carlos Kal-el

domingo, 9 de março de 2008

D I S S I M U L A D A

O que é que você quer?
Vamos, confesse! Eu posso fazer...
Não é porque você não me queira mais
Que vou deixar de ouvir seus lamentos!
Nossa simbiose em muito te beneficia,
Posto que você não sabe viver sozinha,
E eu sou solícito o bastante, admito,
Pra engolir meu orgulho e te amparar,
Sempre que você necessitar,
Embora sempre esbraveje que nunca precisa.
Você é uma criança crescida,
Condicionada em rotinas convenientes,
Comportamentos remissivos, atávicos;
Diz que não mais me quer,
Não porque não mais me queira propriamente,
Mas porque é parte do seu jogo,
De sua dissimulação egotista...
Você e esse eterno jogo de gato e rato,
Onde não há vencedor, apenas vencidos.
Insulta-me pra inflar o seu ego mesquinho,
Mas quando está sozinha, chora a minha ausência,
Pois sou parte de sua vida,
Quiçá a mais importante.
E não há teatro que me convença
Que você deixou de me amar loucamente!
Antônio Carlos Kal-el

sexta-feira, 7 de março de 2008

S E R Á

Será que não tem mais jeito,
Que eu terei que te arrancar de mim?
Será que tanto amor não pôde evitar
Que fosses embora, deixando a solidão
Como companhia para compensar tua falta?
Será que já me esqueceste?
O culpado, quem foi? Eu?
Custa-me crer que eu seja o responsável,
Também não acredito que a culpa seja tua;
Prefiro culpar o amor...
Ele nos vendou, burlou, nos iludiu;
Nos fez acreditar numa felicidade permanente,
Pra nos abandonar em seguida,
Deixando nossa cama vazia
E nossas memórias agitadas e saudosistas.
O que houve conosco?
Quando foi que paramos de conversar?
Vai, me diz! Ou estás tão muda
Quanto o amor que, já há muito tempo,
Parou de ouvir as minhas súplicas?
Será que não ouves meus brados dissonantes
Que insisto em cantar ao vento?
Ou já falamos idiomas diferentes,
E não mais entendes as minhas juras,
Porque elas são ditas numa língua morta?
Porém, se o amor morreu, morreu pra ti,
Pois ainda o falo fluentemente.
Antônio Carlos Kal-el

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

INSÔNIA ALUCINÓGENA

Madrugada. Baldada a tentativa,
Do que carece qualquer alma viva...
O sono, esse maldito companheiro,
Não veio visitar o meu recinto.
No abrasamento que dos olhos sinto –
Vejo o futuro negro e derradeiro!!!

Entre tantos pensamentos absortos –
Desde a imortalidade a seres mortos –
Num lapso (não consigo mais pensar);
E olhando o forro hermético do quarto,
Do surto claustrofóbico me aparto,
E uma porta abro, pra respirar!


De joelhos, sob a lua, desvairado,
Inspirando, ofegante, o ar do prado –
Trôpego, mas liberto da prisão,
Lembro, louco, que achava estar detido
Num lugar totalmente comprimido;
Um baú, semelhante a um caixão!

Exaurindo, com os bofes aos estalos;
De repente ouço o trote de cavalos –
Quando olho, já não vejo mais saída...
Sob os capuzes estão quatro branquelos
Segurando, em suas mãos, negros cutelos.
Afiados por ceifar a minha vida!!!


De repente, ao batuque das zabumbas,
Já me vejo ao redor de muitas tumbas
Com pessoas que vagam ao desterro...
No compasso dos badalos de um sino,
Vejo entes queridos, e, vaticino
Que estou acompanhando o meu enterro!

Num frêmito surto de insensatez,
Meto todos os dedos de uma vez
Na retângula gélida cerâmica,
Tentando libertar a minha imagem
Da diáfana base sem passagem,
Sob os joelhos, numa ação dinâmica!


Do lapso de segundo em que vacilo:
Ergo os olhos – Estou na orla do Nilo!
Embevecido... Tão ébrio de absinto,
Vejo meu corpo dentro dum sarcófago –
Devorado por “besouro antropófago”...
E ao ver a cena me sinto faminto!

Silêncio sepulcral... Sinto o marasmo
E do transe desperto, num espasmo...
Do meu corpo malsão, debilitado –
Suado qual um porco, lembro as estórias:
Seriam verdadeiras? Ilusórias?
Ou dormi, pra com elas ter sonhado???
Antônio Carlos Kal-el

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

DEPOIS DE TANTO AMAR

Não é possível que depois de tanto amor
Não sejamos mais capazes de nos encararmos.
Já dividimos tantas noites insones , sôfregos,
Entre lençóis amarrotados e suspiros sequiosos!
E hoje mal nos cumprimentamos quando nos vemos.
Onde foram parar as gentilezas e os carinhos,
As promessas de amor eterno, as juras?
Onde foi parar o meu bom-senso,
Que não me fez voltar atrás, desculpar-me,?
Pois não sou capaz de viver sem teus afagos.
E a tua lucidez, por onde andará?
-- Não vê que a tua felicidade tem o meu nome...?
Nego-me a aceitar que já não nos conheçamos.
Aprendi a te desvendar completamente --
Defeitos, virtudes, sestros e manias --
E disso não sou capaz de me desatrelar.
Como também desaprendi a conquistar...
Todas as outras mulheres possuem teu rosto,
Tua silueta, teu andar inconfundível.
Contudo, os outros homens não sentem a minha dor,
Não são tão solitários, ressabiados,
Não tiveram que aprender a viver sem ti.
Como até hoje nunca aprendi. Sobrevivo!
Antônio Carlos Kal-el

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

F A N T A S M A S

A solidão costuma me fustigar as idéias,
Bem naqueles momentos em que todos dormem;
São gritos e sussurros que não me deixam só,
E não há nada tão ensurdecedor quanto o silêncio,
Quando as companhias já se foram
E os fantasmas armaram acampamento.
O saldo de guerra após o término do amor
São as lembranças que insistem em permanecer,
Pois não há nada que possa afugentá-las;
E se existe algo que nunca nos deixa
São as recordações de antigos pecados:
Provas cabais dos males que praticamos.
Nos momentos de desespero, a maior dor,
São as lembranças da alegria de outrora,
Que ficam retumbando dentro do peito...
Atestando que um dia já sorrimos.
Nas horas de amargura percebemos
Que os sorrisos abundantes no passado,
Já não vagam livremente como antes:
Estão atarraxados pela ferrugem!
As cicatrizes imperam pelo meu corpo,
Mesmo na minha pele de paquiderme,
Que já não pode sentir o assovio do vento.
Muitas assombrações me fazem companhia...
Um turbilhão de vozes estridentes,
Gritando em meu ouvido de instante em instante:
"Não existe a paz quando se prova do amor."
É. Depois de amar ficamos assombrados...!

Antônio Carlos Kal-el

domingo, 10 de fevereiro de 2008

FAZ DE CONTA

Vem! Finjamos que nada aconteceu...
Prometo esquecer tuas ofensas;
Não guardar rancor dos insultos.
Anda! Não nos atemos aos piores dias,
Revivamos apenas as boas lembranças;
Deve ter sobrado algum resquício de amor.
Vamos! Façamos de conta que não há cicatrizes...
Eu te perdôo as tentativas de homicídio;
E tu, os meus xingamentos escabrosos!
Sei que somos capazes de um entendimento,
Do contrário já teríamos outros pares;
Se estamos sós, é porque nunca nos deixamos!
Aceita meus beijos, que já te excitaram tanto;
Deixa eu desbravar teu corpo saudosista.
Eu sinto que ainda não me tiraste de ti.
Podemos ir juntos à delegacia:
Eu retiro as queixas, o processo...
Somos adultos, ainda que só às vezes.
Não deixemos que nossos egos nos separem,
Saibamos dosar nossas altercações,
Pra que elas não interfiram mais.
Acho que podemos contornar velhas mágoas,
Usufruindo dos nossos melhores instantes...
E, convenhamos, não negue: Tivemos muitos!
Vem! Finjamos que nada aconteceu...
Podemos ser felizes. Eu sei que somos capazes,
Pelo menos até a próxima briga!
Antônio Carlos Kal-el

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

TEMPOS MODERNOS

Vivemos tempos incomuns, imemoriais,
Onde a ordem natural das coisas foi subvertida
E o bem e outras virtudes de caráter,
Já não trazem a devida compensação
A quem se aventure em praticá-las.
Foi-se o tempo romântico dos pequenos pecados.
Hoje impera as disparidades faraônicas,
Os rotineiros desvios de conduta,
As constantes mudanças de identidade,
A total perda de idiossincrasia!
Já não somos um, como outrora.
Pior. Somos uma legião...
Muitos senhores se alternando, ao bel-prazer,
No controle de uma máquina sem controle.
Houve um tempo em que os anjos caíam;
Embora o paralelo não se justifique,
Levando-se em conta tamanha a distância
Que nos separa do divino...
Nós... "pecados"... apenas rolamos e rolamos...
Já que não podemos cair mais.
Rolamos na lama como porcos no cio,
Conspurcando tudo que tocamos.
São sinais dos tempos modernos,
Tempos de agora. Hoje que perdemos a fé.
É uma pena não ser mais tempo de milagres;
Se fosse, eu poderia modificar antigos vícios,
E evitar de cometer gravíssimos erros.
Antônio Carlos Kal-el

INCOERCÍVEL

Todas as vezes que tentei te entender,
Sempre me deparei com as mesmas incertezas,
Como se a minha impressão a teu respeito
Se restringisse a um caminho sem volta...
Contigo sempre me senti como uma estrela perdida
Diante do buraco negro da tua arrogância,
Que invariavelmente me roubava a luz,
Por mais que eu tentasse fulgurar!!!
Todas as tentativas que fiz de te alcançar,
Sempre me levaram a becos sem saídas,
Onde eu me via diante de portas fechadas
E cicatrizes doloridas e incuráveis!
Contigo aprendi a perder o sono
E a decifrar bulas e comprimidos --
Essas companhias de todo fim de noite.
Tu me roubaste mais do que só a paz,
A saúde, a gana, ou outros impropérios;
Roubaste-me a possibilidade de ser.
Das atitudes descabidas de pária que desenvolvi,
Quase todas levam a tua assinatura...
À exceção de algumas: Próprias do meu cunho!
Há muito deixei de crer nas pessoas,
Embora eu ainda faça parte desse rol;
Rol onde não me deste chance de me mostrar,
Pois o amor era um palco pequeno demais pra nós.
Há muito deixei de te amar desesperadamente.
Isso não quer dizer que eu tenha esquecido,
Pois os erros são mais marcantes e lenitivos
E o amor só sobregarrega o pâncreas,
Ainda que vicie o alma...
E eu nunca fui de negar o meu instinto incoercível.

Antônio Carlos Kal-el

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

P A R A S I T A


E agora só te restam as lembranças,
Pois tudo que existia – não alcanças...
Aquilo que tivera se perdeu;
Eu sim, na tua desgraça agora sorvo
O sorriso que um dia fora teu...
Agora sentes dores? Vês? sou eu!
De ti me alimentando como um corvo!

Eu sempre me alimento da tua dor.
E medro – quanto maior ela for!
Cresço mais, quanto menos tu cresceres;
Se em meio a tanta dor és tão inerme –
Mais crescerei! Por fim – quando morreres...
Hás de findar-se, como os outros seres:
Comerei as tuas carnes como um verme!

Se tens a vida de males repleta –
Esse teu infortúnio me completa –
E eu ando a espreitar a tua desgraça:
Querendo sê-la, no teu vil final...
Eu, quando chegar o fim da tua raça,
Salivando perante a tua carcaça –
Teu ventre rasgarei como um chacal!

Eu ainda hei de ver a tua miséria...
Depois da solidão eremitéria,
Quando, por fim, das forças te esmoreças,
E sentindo que nada mais te nutre –
Morreres (como morrem pés, cabeças)...
Vou então esperar que tu apodreças
Para eu te devorar como um abutre!

E, indiferente às tuas faces úmidas,
Ou, quiçá, quem dera, às vísceras túmidas...
Nada no mundo irá nos separar –
Eu sempre te serei a mesma frágua;
A dor intermitente a martelar...
E enquanto este teu peito respirar,
Irei te carcomer como uma mágoa!!!
A. Carlos Kal-el

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

FALTA ALGO

Indiferente a todas as minhas necessidades anteriores,
Hoje me falta algo que nada no mundo pode me dar,
Ou me devolver, já que fui usurpado, de súbito...
Dos pedaços de mim que perco a cada instante:
Cabelos, ossos... os dias..., enfim, a razão, o juízo!
Nada se compara ao que perdi outro dia.
Perdi o chão... Se o chão pudesse ser perdido.
Perdi o céu... Se o céu pudesse ser conquistado.
Perdi a sintonia, a sensatez...
Ah, sim! Isso pode ser perdido, pode ter certeza!
Ou nunca, durante toda uma vida, pode ser achado,
Já que lucidez é privilégio de poucos,
E desespero é o vaticínio de todos.
Aonde foi parar a minha esperança de sonhar?
Ainda serei capaz de entender a inocência?
Quem julgou que eu seria capaz de suportar a dor?
Ou que, sequer, eu deveria senti-la?
Quem disse que eu precisava sentir na pele,
Ou no coração, pra aprender que nada é justo...
E pouco é certo...! A não ser o que não sabemos!
Estou precisando de um pouco de paz...
Hoje mais do que nunca precisei antes;
Um pouco da paz que sempre tive,
Mas nunca fui capaz de usufruir,
Pois sempre estive enganado sobre o que era a dor.
Hoje me falta algo que nunca dei o real valor,
Algo que se foi, indiferente à minha vontade.
Hoje me falta um pai... O meu...!!!
Alguém o roubou de mim!
Se eu soubesse quem foi, o traria de volta!
A. Carlos Kal-el

domingo, 13 de janeiro de 2008

MINHA DOR SE ALIMENTA DA SAUDADE

Quando a dor se alimenta da perda...
Seja qual for o motivo, (o que quase nunca existe)!,
Não há palavras que possam definir,
Tampouco alívio que consiga atenuar;
Há, sim, um vão que se abre, profundo,
Onde o fim dos pesadelos, ou o término da queda,
É o que menos importa diante de tudo que se foi.
Quando a dor se alimenta da falta...
Daquele abraço que não pôde ser dado,
E, por uma ironia do destino, jamais poderá;
A alma se acinzenta, enquanto o corpo apodrece -
Numa simetria que chega a beirar o absurdo,
Onde a parte que ainda vive é a única que sofre,
Por jamais esquecer de alguém que um dia se foi.
Quando a dor se alimenta de um vazio...
Toda a matéria do universo não o ocupa;
É um buraco negro que a tudo consome, suga -
É essa saudade, essa falta de presença -
De algo que esteve ali, e ainda permanece,
Embora já não o possamos tocar, ver...
LEMBRANÇA é tudo que resta do que se foi.
Quando a dor se alimenta da saudade...
As recordações são vastos campos floridos,
Ainda que as feições sejam esfumaçadas
E os diálogos desconexos e ininteligíveis;
O que ficou é real, tanto quanto um sonho...
E deixar de sonhar é como perder a visão,
E de agora em diante vou sobreviver do tato,
Pois perdi a esperança de ainda sonhar.
Quando a dor se alimenta da minha cegueira...
Bah...Deixa pra lá! Já não sou capaz de ver mesmo!
Tudo que já vi foi pelo olhar do meu pai...
E a vida acabou de me vendar os olhos.
A. Carlos Kal-el

sábado, 12 de janeiro de 2008

EM BUSCA DE UM DIA DE SOL

Hoje o dia amanheceu chorando...

As nuvens escuras pareciam dizer, num trovão retumbante,

Que a saudade de ti já chegara ao firmamento

E que, na impossibilidade de te apagar da lembrança,

O mais louvável seria se expressar numa chuva torrencial...

Na mansidão com que os pingos castigam o solo,

Parodiando tua imagem martelando em meus sonhos,

Percebo que a vida se faz por ciclos intermitentes,

Onde te amei intensamente por tão poucos verões,

E agora preciso te esquecer através de invernos sempiternos.

No meu coração está caindo uma tempestade –

São lágrimas saudosistas – fragmentos de uma ilusão,

Um sonho desfeito pelos pecados da presunção.

Às cinzas que restaram de mim, depois que te perdi,

Hão de se juntar essas lágrimas malogradas,

Formando um lamaçal que simboliza

A dor da solidão de quem perdeu a vontade,

O interesse de continuar buscando a felicidade –

Esse estado da alma em que as satisfações são plenas,

Os infortúnios, lembranças longínquas,

E a tua presença uma premissa indispensável...

Minhas esperanças estão encharcadas de dúvidas,

Receios que se eternizam na nebulosidade;

Falta um dia de sol pra dissipar a tristeza,

Digo, luz dos teus olhos irradiando amor,

Pra que a alegria volte a viver em minha vida

E eu volte a olhar o formato das nuvens com outros olhos.

A. Carlos Kal-el

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

D E L Í R I O S

Eu em você...
Pra que viver?
Pois tanto faz –
Ao te perder,
Perdi meu ser
E a minha paz !!!

Tanto prazer...
Como esquecer?
Já não dá mais!
Como não ter,
No peito, um quê
De dores tais???

Não vou poder
Sobreviver
Sem o meu cais!
Não vou saber
Como entender
Você, jamais!!!

Eu vou sofrer –
Talvez morrer
Cedo demais,
Por te querer
Sem me conter –
Como um audaz!!!

Vivo a gemer...
Peito a doer –
Falta voraz!!!
De amor a arder...
Você, cadê?
Que, a si, não traz???

Quero sorver!
Seu cheiro ver;
Em labiais
Gestos lamber
Seu ponto “G”
Até os finais!!!
A. Carlos Kal-el

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

RECONCILIAÇÕES

Quando brigamos, expomos nossas insatisfações...

Embora as palavras que ficam retumbando na memória,

Sejam sempre aquelas que nunca deveríamos ter dito.

Mostramos, com a atitude de conversar, num tom mais elevado,

Que ainda que dividamos o amor, ou cópia dele,

Não estamos completamente felizes ou satisfeitos –

Daí vem a vontade de consertar algumas fissuras,

Ou talvez alargar de vez as trincas existentes...

E no cume das altercações, das ofensas mútuas,

Dizemos que não faz mal se tudo terminar;

Mas é somente quando os ânimos assentam,

Quando voltamos a ouvir alguma outra coisa,

Que não seja o som de nossa própria voz,

Que realmente nos damos conta que ficamos sozinhos –

Que as diferenças doem menos que a solidão...

Por fim, no auge da dor e do arrependimento,

Vem uma vontade incontrolável de voltar e pedir perdão;

É quando abrimos o peito e pomos os orgulhos de lado

E pedimos desculpas pelos palavrões e xingamentos...

Então o amor se renova, renasce, ressuscita,

Como as folhas, na primavera, depois do inverno,

Num sofisma incoerente, onde as brigas, atos rotineiros,

São meros subterfúgios para as reconciliações:

Sendo assim, meu bem, perdoe-me, que eu me excedi...

Agora me beije, que o amor necessita de continuidade!!!

A. Carlos Kal-el

RECORDAR PRA VIVER

Gosto de lembrar de nós, por mais que me machuque;

De me pegar imaginando que também recorda,

Como se pudéssemos, num quadro surreal,

Dividir, ao mesmo tempo, a mesma lembrança –

Rotina comum, quando compartilhávamos ideais.

Custa-me crer que aquelas promessas de amor

Tenham sido apenas formalidades de enamorados,

Que fazem juras de amor sem pesar responsabilidades.

Porém, hoje, a minha vida está atrelada à saudade,

E me alimento das lembranças do que fomos,

Recordando os vividos momentos de cumplicidade,

Já que o presente não me oferece outra alegria.

Mentalizo suas curvas nas melodias que ouço,

Naquelas canções que outrora cantávamos,

Jurando, na intimidade de um quarto de motel,

Que tais composições tinham sido feitas pra nós.

Agora confesso que parei de compor,

Pois minha inspiração vinha de nossas brigas,

Do abraço solícito da reconciliação,

Da certeza convicta de que voltávamos mais fortes

E de que nada no mundo iria nos separar.

Mas acho que você esqueceu as próprias juras,

E me arrancou do seu peito, iracunda,

Como quem arranca um câncer incurável,

Lançando-me ao exílio, sem anistia ou perdão,

Deixando-me, como única saída, um dilema:

Recordar pra viver, ou então morrer de tristeza.

Não sei por quê, mas sempre sou dado a rompantes,

Principalmente àqueles de maior dramaticidade.

A. Carlos Kal-el