sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

RECORDAR PRA VIVER

Gosto de lembrar de nós, por mais que me machuque;

De me pegar imaginando que também recorda,

Como se pudéssemos, num quadro surreal,

Dividir, ao mesmo tempo, a mesma lembrança –

Rotina comum, quando compartilhávamos ideais.

Custa-me crer que aquelas promessas de amor

Tenham sido apenas formalidades de enamorados,

Que fazem juras de amor sem pesar responsabilidades.

Porém, hoje, a minha vida está atrelada à saudade,

E me alimento das lembranças do que fomos,

Recordando os vividos momentos de cumplicidade,

Já que o presente não me oferece outra alegria.

Mentalizo suas curvas nas melodias que ouço,

Naquelas canções que outrora cantávamos,

Jurando, na intimidade de um quarto de motel,

Que tais composições tinham sido feitas pra nós.

Agora confesso que parei de compor,

Pois minha inspiração vinha de nossas brigas,

Do abraço solícito da reconciliação,

Da certeza convicta de que voltávamos mais fortes

E de que nada no mundo iria nos separar.

Mas acho que você esqueceu as próprias juras,

E me arrancou do seu peito, iracunda,

Como quem arranca um câncer incurável,

Lançando-me ao exílio, sem anistia ou perdão,

Deixando-me, como única saída, um dilema:

Recordar pra viver, ou então morrer de tristeza.

Não sei por quê, mas sempre sou dado a rompantes,

Principalmente àqueles de maior dramaticidade.

A. Carlos Kal-el

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