Seja qual for o motivo, (o que quase nunca existe)!,
Não há palavras que possam definir,
Tampouco alívio que consiga atenuar;
Há, sim, um vão que se abre, profundo,
Onde o fim dos pesadelos, ou o término da queda,
É o que menos importa diante de tudo que se foi.
Quando a dor se alimenta da falta...
Daquele abraço que não pôde ser dado,
E, por uma ironia do destino, jamais poderá;
A alma se acinzenta, enquanto o corpo apodrece -
Numa simetria que chega a beirar o absurdo,
Onde a parte que ainda vive é a única que sofre,
Por jamais esquecer de alguém que um dia se foi.
Quando a dor se alimenta de um vazio...
Toda a matéria do universo não o ocupa;
É um buraco negro que a tudo consome, suga -
É essa saudade, essa falta de presença -
De algo que esteve ali, e ainda permanece,
Embora já não o possamos tocar, ver...
LEMBRANÇA é tudo que resta do que se foi.
Quando a dor se alimenta da saudade...
As recordações são vastos campos floridos,
Ainda que as feições sejam esfumaçadas
E os diálogos desconexos e ininteligíveis;
O que ficou é real, tanto quanto um sonho...
E deixar de sonhar é como perder a visão,
E de agora em diante vou sobreviver do tato,
Pois perdi a esperança de ainda sonhar.
Quando a dor se alimenta da minha cegueira...
Bah...Deixa pra lá! Já não sou capaz de ver mesmo!
Tudo que já vi foi pelo olhar do meu pai...
E a vida acabou de me vendar os olhos.
A. Carlos Kal-el


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