Que, se agora nos refestelamos na alegria plena,
A certeza de uma ressaca de tristeza nos aguarda no despertar.
Olhamos – o amanhã – assombrados pela incerteza;
Ainda que tenhamos total controle do que fazemos.
Assim – por mais completo ou satisfeito que sejamos,
Há um vazio inerente que nos cobra por algo mais,
E quando já não nos falta nada (o que é impossível),
Abdicamos de tudo em busca daquela paz que outrora tivemos.
De certo, é que é da natureza humana a eterna insatisfação...
Uns querem, em princípio, apenas o mínimo possível –
Daí os desejos ganham configurações mais ambiciosas;
Outros, no ápice de suas megalomanias,
Buscam mais do que podem usufruir ou necessitem –
Mas fatalmente todos querem alguma coisa, seja o que for!
E do cúmulo da nossa especulação do abstrato
Paramos e perguntamos: “O que Deus poderia querer?”
“Teria sonhos? Se não como os nossos – semelhantes?”
“A quem poderia solicitá-los, se acaso os tivesse?”
Sonhos: querer, ansiar, almejar, desejar algo...
Carregar no íntimo uma frustração incontida
Por não ter o poder de plenamente realizá-los!
Qual seria o preço dos sonhos – A punição?
Se não, qual a moeda de troca utilizada?
Pois a pena nunca se iguala ao tamanho do delito –; isto é certo!
Como o êxito da conquista, por mais satisfatório que seja,
Jamais será igual a plenitude do sonho...
Certamente Deus não nos realiza todos os sonhos,
Porque não pode nos cobrar os castigos equivalentes...!
A. Carlos Kal-el


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