Fosse me abalar de forma tão profunda...
E que a solidão me fizesse sentir tanta falta dos teus afagos,
Ou que os seus defeitos me parecessem tão virtuosos!
Por que somente agora as tuas mentiras me são claras?
Que o veneno sorvias na minha saliva que explique tanto torpor?
Ah, contigo acabei todo o meu estoque de lágrimas...
Posso até dizer que não sou mais capaz de chorar por ninguém,
Tampouco, também, sou capaz de acreditar novamente --
Tu me roubaste aquela inocência que me desarmava;
Já não levo o peito aberto, e os cabelos ao vento,
Esperando encontrar apenas o que de melhor as pessoas têm --
Hoje a mágoa macula a minha boa-fé,
E atrás do gesto mais despretensioso,
Por tua causa, só vejo as traições que ele possa ocultar --
Perdi a capacidade de me surpreender:
Agora tudo tem um preço e um motivo...!
Não que antes não tivesse – é diferente –
Outrora eu me deixava levar pelas possibilidades –
No presente, já não vejo outras coisas,
Que não, a dor e o sofrimento que possam me causar
Qualquer mulher que se aproxime,
Tentando afagar as feridas incuráveis que me fizeste...
Quando poderei aplacar toda essa atonia?
Nunca! Não há como te eximir do meu fadário.
Eu sempre hei de lembrar do mal que me causaste!
Conseqüentemente toda mulher terá o teu rosto:
Toda dor terá a tua assinatura –
Como uma tatuagem cauterizada no meu coração.
Como não posso te esquecer,
Também não posso voltar a amar, seja quem for.
Resta-me apenas a dureza que me fez, de amável –
Agora – por tua causa, um eterno empedernido.
A. Carlos Kal-el


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